|
Introdução Das
análises feita à carta de Paulo aos Romanos, verificou-se que, dos
capítulos 1, 2 e 3, até o verso 20, o escritor tratou de desfazer a
pretensa vantagem dos judeus quanto à salvação. Paulo demonstra
argumentativamente, invocando a autoridade das Escrituras Rm 3: 10, que
todos os homens estão reféns da condição herdada em Adão "Todos os que
sem lei pecaram, sem lei também perecerão, e todos os que sob a lei
pecaram, pela lei serão julgados" Rm 2: 12. Este
versículo demonstra que todos os homens, judeus e gentios estão
condenados. Os gentios perecerão, e os judeus serão julgados quanto às
suas obras segundo a lei. Nenhum homem será justificado, pois ninguém
consegue viver para Deus por intermédio da lei Rm 2: 13. Os
versículos 21 à 31 do capítulo 3, retoma a abordagem que teve início
nos versículos 16 e 17 do capítulo 1. Observe que a idéia é una nos
versículos seguintes: "Não me envergonho do evangelho, pois é o poder
de Deus para a salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e
também do grego. Pois nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé,
como está escrito: O Justo viverá da fé (...) Mas agora se manifestou,
sem a lei, a justiça de Deus, tendo o testemunho da lei e dos profetas.
Isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos {e sobre
todos} os que crêem. Não há distinção" Rm 1: 16- 17 e 3: 21- 22. No
capítulo 4, o apóstolo demonstra por meio de exemplos o que foi exposto
anteriormente sobre a justificação pela fé, que consta no capítulo 3,
dos versos 21 à 31. Em linhas gerais, Paulo demonstrou que: - Jesus é a justiça de Deus manifesta aos homens Rm 3: 21;
- A justiça de Deus é alcançada pela fé em Jesus Rm 3: 22;
- A salvação de Deus é para todos os homens, visto que todos pecaram Rm 3: 22- 23;
- A salvação de Deus livra o homem da condenação (pecado) herdada de Adão, pois em Adão todos pecaram;
- Os que foram declarados condenados em Adão, por intermédio da redenção em Cristo é declarado justo por graça Rm 3: 24;
- Para
que Deus seja Justo e Justificador, Cristo manifesto é a propiciação do
pecado (pela fé no seu sangue), remindo os pecadores. Está é a base da
justificação em Cristo;
- Por intermédio da fé, a lei é estabelecida: não há acepção ou distinção entre os homens diante de Deus.
Após a conclusão Rm 3: 28, Paulo passa a demonstrar evidência da justificação pela fé nos pais da nação judaica. Antes de prosseguirmos, é preciso esclarecermos duas passagens bíblicas: "Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus" (Mateus 5: 20). É
sabido que os fariseus eram uma das mais severas seitas do judaísmo e
lideravam um movimento para trazer o povo a submeter-se à lei de Deus.
Eles eram extremamente legalistas, formalistas e tradicionalistas. Hoje
estes termos são utilizados de maneira pejorativa, mas à época de
Cristo, era tida por justa a maneira de viver dos fariseus. Os
fariseus eram uma referência moral, de caráter, de ética e
comportamento. Aos olhos dos homens eles eram justos "Assim também vós
exteriormente pareceis justos aos homens, mas interiormente estais
cheios de hipocrisia e de iniqüidade" (Mateus 23: 28). Qual justiça Jesus estava recomendando aos seus ouvintes? Qual justiça excede a dos fariseus? Sabemos que Cristo é a justiça de Deus manifesta aos homens. É Ele a Justiça que excede a justiça dos escribas e fariseus. Esta justiça é imputada por meio da fé em Cristo, e vem do alto Rm 10: 6. A justiça divina não se vincula a elementos humanos como comportamento, moral, caráter, sacrifícios, religiosidade, etc. Da
mesma forma que para se ter acesso ao reino de Deus é preciso nascer de
novo, a justiça que ultrapassa a dos escribas e fariseus também
decorre do novo nascimento. Enquanto os fariseus e saduceus não
conseguiram ser justificados por intermédio das obras da lei, aqueles
que crêem em Cristo recebem de Deus poder para serem feitos (criados)
filhos de Deus: estes, que são nascidos de semente incorruptível, que é
a palavra de Deus, são declarados justo por Deus. Os
fariseus e saduceus jamais seriam justificados por Deus, visto que em
Adão já estavam condenados, e as suas obras reprováveis por não serem
feitas em Deus Jo 3: 18- 19. Já a nova criatura, é livre da condenação
em Adão, e as suas obras são aceitáveis, pois são feitas em Deus Jo 3:
21. Livre da condenação em Adão, o homem será
julgado no tribunal de Cristo. Já os condenados em Adão, ao
comparecerem ante o grande Tribunal do Trono Branco, não será
justificado, pois as suas obras são trapos de imundície, e não servem
para vestes. Só a justiça providenciada
por Deus, por intermédio de Cristo, excede a dos escribas e fariseus.
As obras dos escribas e fariseus eram segundo as suas naturezas
herdadas de Adão: obras mortas. "Não
cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer paz, mas espada;
Porque eu vim pôr em dissensão o homem contra seu pai, e a filha contra
sua mãe, e a nora contra sua sogra; E assim os inimigos do homem serão
os seus familiares. Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é
digno de mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é
digno de mim. E quem não toma a sua cruz, e não segue após mim, não é
digno de mim. Quem achar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a sua
vida, por amor de mim, achá-la-á" Mt 10: 32- 39.
Myer Pearlman ao comentar os versículos acima disse: "Esta
é a idéia contida nestes versículos: A comunhão com Cristo pode
significar separação daqueles que nos são queridos na terra, mas a
recompensa será grande (...) É doloroso o repúdio dos familiares,
talvez a mais severa tentação que o convertido possa enfrentar" Pearlman, Myer, Mateus, O evangelho do Grande Rei, Ed. CPAD, 1. ed. Rj, 1995, Pág. 75, V. Jesus
realmente recomendou aos seus ouvintes, e a nós, que abandonássemos os
nossos familiares? Como entender estes versículos e conciliá-los com o
primeiro mandamento com promessa? "Honra a teu pai e a tua mãe, que é o
primeiro mandamento com promessa" (Efésios 6: 2). Como
entender que o príncipe da paz não veio trazer paz à terra? O príncipe
da paz empunha uma espada? Por que Jesus veio semear dissensão entre o
homem e o seu pai? Como interpretar essa passagem? O
apóstolo Paulo é categórico quanto à interpretação "As quais também
falamos, não com palavras de sabedoria humana, mas com as que o
Espírito Santo ensina, comparando as coisas espirituais com as
espirituais" (I Coríntios 2: 13). A
interpretação bíblica não pode ser pautada em sabedoria humana. Ela
deve ser estudada através do que o Espírito Santo ensina. Como o
Espírito nos ensina? Quando comparamos as coisas espirituais com as
espirituais! Para comparar as coisas
espirituais com as espirituais, e ser ensinado pelo Espírito de Deus,
devemos nos socorrer da citação bíblica que Cristo faz: "Os inimigos
dos homens são os da sua própria casa" Mt 10: 36 e Mq 7: 6b. O
profeta Miquéias sente pena de si mesmo. Miquéias sente-se faminto pela
justiça Mq 7: 1. Por que esta fome e sede? Porque não há homem piedoso
sobre a face da terra. Ninguém é reto, pois todos se desviaram em Adão
Mq 7: 2. As obras dos ímpios e o mal, ou
seja, a árvore produz frutos segundo a sua espécie Mq 7: 3. O melhor
dos homens é comparado a um espinho, que se dirá do mais reto? Mq 7: 4.
Porém, Miquéias visualiza algo maravilhoso: veio do dia dos seus
vigias, ou seja, o dia daqueles que esperavam a visitação de Deus! Mas,
o dia da visitação do Messias, também é dia de confusão! Quem haveria
de entender as parábolas de Cristo? Mq 7: 4. Na
visitação seria semeada a desconfiança Mq 7: 5. O motivo é evidenciado:
o filho despreza o pai; a filha é contra a mãe; a nora e a sogra não
têm acordo. Por fim, tudo se resume na frase: "Os inimigos do homem são
os da sua própria casa". Após lermos e interpretarmos estes versículos de Miquéias, passemos ao Novo Testamento. Quando
Jesus cita o pequeno trecho de Miquéias, ele estava anunciando ao povo
que a profecia estava se cumprindo ao seus ouvidos. Jesus estava
anunciando que ele era o Messias esperado por muitos, e que havia
chegado o dia da visitação. O texto de
Miquéias é claro: O Messias não haveria de trazer paz, mas confusão e
dissensão Mq 7: 5- 6. Por quê? A mensagem do evangelho demonstra que os
injustos vivem para si, e não para Deus. A condição de injustiça dos
homens teve origem em Adão, e não em suas ações, pois todos pecaram e
carecem da glória de Deus. Jesus veio por
causa dos injustos, ou melhor, daqueles que tem fome e sede de justiça
Mq 7: 1. Destes elementos decorre que: Deus jamais haveria de
estabelecer comunhão com os filhos da ira, por isso, Cristo não trouxe
paz aos homens que habitam a terra. Ele trouxe a espada, que representa
morte e justiça. Os ímpios só podem ter contato com a espada, e não com
a paz de Cristo. Ao trazer a espada (justiça
e morte) àqueles que têm sede e fome de justiça, Cristo estabelece a
dissensão entre os seus familiares. Como? O homem está condenado diante
de Deus por causa da filiação de Adão. Os judeus consideravam salvos
por serem descendentes de Abraão. Jesus propõe aos seus ouvintes que se
desvinculem de seus familiares, ou seja, das suas origens em Adão e da
idéia de que eram descendência de Abraão para que se tornasse possível
receberem a Cristo. Da mesma forma que Abraão
saiu do meio de sua parentela por fé, só é possível o homem abandonar
pai, mãe, irmão e irmã por meio da mesma fé que teve o pai Abraão.
Somente desta forma é possível adquirir a filiação divina. Para
ir após Cristo, somente tomando a cruz. Não há como seguir após Cristo
até Deus, sem antes o homem ter um encontro com a cruz de Cristo. Na
cruz de Cristo o homem corta toda e qualquer relação que tinha antes
com o pecado de Adão, ou com a idéia de que é filho de Deus por
intermédio da descendência de Adão. A cruz de
Cristo é a espada que traspassa o velho homem que teve origem em Adão.
Somente após ter um encontro com Cristo, o homem terá a sua fome e sede
de justiça saciadas. Este perde a sua vida terrena, e adquire de Deus
uma nova vida, achando-a. É vida abundante! Aqueles que encontram a nova vida que há em Deus, são aceitos por filhos de Deus e declarados justos. Isto
posto, fica demonstrado que em momento algum Jesus disse para
abandonarmos os nossos genitores ou parentes à própria sorte. Antes,
Jesus recomenda aos seus ouvintes a honrar pai e mãe, e este é um dos
mandamentos de Deus "E assim invalidastes, pela vossa tradição, o
mandamento de Deus" (Mateus 15: 6). 1 QUE diremos, pois, ter alcançado Abraão, nosso pai segundo a carne? Esta
pergunta de Paulo é totalmente pertinente às questões da salvação em
Deus. Os judaizantes alegavam ser salvos por descenderem de Abraão, e
isto implicaria em dizer que, Abraão também recebeu algo decorrente de
seus pais. O que Abraão alcançou segundo a sua descendência? Nada. Além
do mais, ele era descendente de gentios, que por sua vez não tinham o
sinal da circuncisão na carne. Se Abraão
tivesse alcançado a justificação segundo a carne (descendência), seria
correto afirmar que era possível receber a salvação por ser
descendencia de Abraão. 2 Porque, se Abraão foi justificado pelas obras, tem de que se gloriar, mas não diante de Deus. Da
mesma forma, caso Abraão pudesse produzir algo (obras) que o
justificasse, teria elementos para gloriar-se (jactância), o que era
feito pelos judeus Rm 3: 10 e 27. Abraão poderia considerar ser melhor,
ou que tinha alguma vantagem quanto à salvação. Estas
considerações decorrente das obras não permite que homem algum se
glorie perante Deus. Todos eles somente se gloriam diante de seus
semelhantes, e este era o caso dos judeus. 3 Pois, que diz a Escritura? Creu Abraão em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça.
Paulo
deixa a sua argumentação de lado e se apóia na autoridade das
Escrituras "Creu Abrão no Senhor, e isso lhe foi imputado para justiça"
Gn 15: 6. Paulo demonstra através dos textos sagrados que a fé sempre
esteve em pauta, quando se faz referência a salvação que procede de
Deus. 4 Ora, àquele que faz qualquer obra não lhe é imputado o galardão segundo a graça, mas segundo a dívida. Paulo
constrói uma nova argumentação: o salário é uma dívida do empregador
para com quem trabalha. Não é uma relação segundo a graça, e sim,
decorre de dívida. Se a justificação fosse segundo o que os judaizantes
anunciavam, Deus teria uma dívida para com Abraão, e não o contrário.
Abraão seria credor na relação acima. 5 Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça.
Em
contra partida, qualquer um que não pratica as coisas da lei (este foi
o caso de Abraão), mas crê em Deus que pode justificar 'o ímpio', a fé
do crente é imputada por Deus como justiça. Observe que Paulo faz
referência a justificação em uma abordagem evangelística, e não
teológica. Na linguagem evangelística é
válido argumentos tais como: Deus salva o pecador; Deus justifica o
ímpio; Deus perdoa os pecados; etc. Por que é válida esta argumentação?
Porque na evangelização é quase impossível utilizar a linguagem
teológica acerca da salvação em Cristo. Observe
a frase segundo a visão teológica: "...mas crê naquele que justifica o
ímpio...". Ao analisá-la seguindo a idéia do verso seguinte: "Que
guarda a beneficência em milhares; que perdoa a iniqüidade, e a
transgressão e o pecado; que ao culpado não tem por inocente; que
visita a iniqüidade dos pais sobre os filhos e sobre os filhos dos
filhos até à terceira e quarta geração" (Êxodo 34: 7), percebe-se que
Deus é justificador, visto que é ele quem perdoa a iniqüidade, a
transgressão e o pecado. Porém, de modo algum, ele terá o culpado por
inocente, ou seja, ele não justifica o ímpio. |